| Usinas e heveicultores buscam certificação para atender mercado europeu (conteúdo aberto) |
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| 10/03/2026 | |
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Setor se divide entre a corrida pela adequação e os custos para cumprir as exigências do novo regulamento ambiental da União Europeia Camila Gusmão De olho no mercado europeu de pneumáticos, usinas e heveicultores brasileiros intensificam a busca pela certificação da produção de borracha natural. A movimentação é uma resposta direta ao Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR, na sigla em inglês), que incide sobre cadeias produtivas estratégicas, como as de café, soja, óleo de dendê, madeira, couro, carne bovina, cacau e borracha natural. A norma entrará em vigor em junho de 2026 para micro e pequenas empresas. Divulgação/ São Manoel Com o novo regulamento, o mercado europeu exige que a borracha natural e seus derivados sejam rastreáveis e provenientes de áreas livres de desmatamento após 31 de dezembro de 2020. Para o cumprimento da norma, são requeridas comprovações rigorosas, como a geolocalização da produção para fins de rastreamento e certificações de sustentabilidade agrícola reconhecidas internacionalmente. No Brasil, o setor produtivo já iniciou a adaptação a nova realidade. Localizada em Jaci (SP), a Hevea-Tec, usina de beneficiamento adquirida pelo grupo Pirelli, anunciou estar em fase de conclusão da auditoria do FSC (Forest Stewardship Council ou Conselho de Manejo Florestal) em plantações de seringueira de pequenos produtores parceiros. A certificação FSC atesta que as áreas são gerenciadas de modo a preservar a biodiversidade e proporcionar benefícios sociais às comunidades locais e aos trabalhadores, atendendo aos padrões exigidos pela EUDR. A São Manoel, estabelecida em Neves Paulista (SP), iniciou o processo de conformidade em 2024. “Eles apresentaram o setor com suas características específicas, que o diferenciam da produção dos demais países produtores de borracha natural no mundo. Desde então, a São Manoel acompanhou a elaboração dos critérios que norteiam essa certificação e passou a desenvolver, com seus clientes e parceiros fornecedores, a divulgação deste trabalho”, afirma Fernando do Val Guerra, diretor da empresa. Para Guerra, embora a iniciativa diferencie a produção nacional, as incertezas sobre a implementação e o prazo de vigência da EUDR trazem desafios adicionais. “A usina São Manoel enxerga como positiva essa iniciativa que diferencia a produção brasileira de borracha natural e está preparada para certificar seus produtores e atender a essa demanda conforme solicitado por seus clientes”, destaca. A Noroeste Borracha, em Urupês (SP), iniciou a adequação em janeiro, com previsão de concluir a certificação em agosto deste ano. Renato Arantes, supervisor de compras da usina, vislumbra oportunidades de expansão: “Estamos adequando as propriedades para serem certificadas. A certificação ambiental é importante, pois possibilita a busca por novos mercados que remunerem esse produto”, afirma. Com unidade em Mirassol (SP), a ASK Trading pretende certificar aproximadamente 20 propriedades parceiras ainda neste ano. “Acredito que até o final de 2026 já teremos condições para atender aos critérios exigidos pela EUDR, e em 2027 a certificação FSC. Porém, há necessidade de se ter uma demanda pela borracha certificada com a devida remuneração por valor agregado”, relata o diretor Ricardo Machado Fontenla. Abordagem conservadoraPor outro lado, o processo é visto com cautela por uma parcela do setor devido aos altos custos operacionais. A Braslátex, localizada em Bálsamo (SP) – região que compõe o maior polo de heveicultura do Estado de São Paulo –, optou por não finalizar o processo no momento. “Não finalizamos por enquanto devido ao custo e ao mercado”, justifica Adiel Carvalho, diretor da empresa. Com três décadas de atuação, a Braslátex detém o Selo Apabor Usina Legal e a certificação ISO 9001:2015. “Temos laboratório próprio, onde realizamos análises da matéria-prima, garantindo qualidade superior e a rastreabilidade do produto”, ressalta. João Luiz Berckmans, diretor da Colitex, com unidade em Poloni (SP), compartilha dessa postura cautelosa. “Por enquanto, estamos deliberando essa proposição, avaliando o custo-benefício”, afirma. Segundo o diretor, o processo pode onerar o produtor caso não haja uma contrapartida financeira imediata. “Claro que pode também recompensar na valorização do produto, mas se o custo não for reconhecido pelo nosso cliente final para nos incentivar com remuneração adicional, acaba se tornando inviável financeiramente”, conclui. A heveicultura brasileira encontra-se em um momento decisivo de transição. Embora a conformidade com as exigências da União Europeia represente um “passaporte” necessário para a manutenção do acesso aos mercados internacionais de alto valor agregado, o sucesso dessa adaptação dependerá do equilíbrio entre o rigor das certificações e a viabilidade econômica para os produtores. O fortalecimento de políticas de fomento e o reconhecimento financeiro da sustentabilidade pelas fabricantes de pneumáticos e de outros artefatos de borracha serão fundamentais para consolidar o Brasil como um fornecedor estratégico e ambientalmente responsável de borracha natural.
Permitida a reprodução total ou parcial, desde que citada a fonte. Rev. 10/03/2026 14:00 |
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