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Avanço de pneus importados paralisa venda de borracha natural no campo (conteúdo aberto) PDF
27/08/2026

Com estoques em usinas no limite de seis meses e retração na indústria pneumática, produtores acumulam até cinco mil toneladas de coágulo sem comprador

Camila Gusmão

O crescimento acelerado da entrada de pneus importados no mercado brasileiro paralisou o escoamento de borracha natural e deixou cerca de cinco mil toneladas de coágulo retidas nas propriedades rurais, sem perspectiva imediata de comercialização. Com usinas de beneficiamento em capacidade máxima de armazenamento, a compra de matéria-prima foi suspensa nas principais regiões produtoras do país. Ao mesmo tempo, as fabricantes de pneus instaladas no Brasil reduziram a demanda diante do menor ritmo de produção e vendas de pneus.

LATEKS/ Heiko Rossmann

Armazenamento atinge limite de capacidade nas usinas

A retração atinge o setor heveícola em um momento de término de safra, ameaçando a viabilidade financeira de produtores rurais e sangradores. O impasse decorre da forte perda de participação da indústria nacional, responsável por absorver cerca de 80% da borracha natural produzida no país, mas que perde espaço para concorrentes externos no mercado de reposição.

De acordo com o presidente da União Cooperativa de Produtores de Borracha Ltda (Unihevea), Celso Aparecido Resende de Carvalho, a interrupção nas compras pelas usinas responde a limites operacionais e financeiros. “A maioria das usinas parou de comprar borracha por volta do dia 20 de julho por não ter espaço físico para comportar o restante da safra e também pelo volume de capital imobilizado nos estoques”, explica. Carvalho acrescentou que chuvas atípicas em junho estenderam a produção de látex até agosto, gerando um volume de produção não planejado para o período.

O descompasso agravou-se com a postura da indústria pneumática, que reduziu o recebimento de cargas devido a vendas abaixo do previsto. “A expectativa era produzir e ir escoando aos poucos, mas travou. A paralisação, que inicialmente seria temporária, de cerca de dez dias, como normalmente acontece para redução dos estoques, continua”, relata o presidente da Unihevea. Segundo o dirigente, há relatos de cancelamento de entregas programadas para outubro e novembro, sem cronograma definido para a retomada do escoamento da produção.

Estoques chegam a seis meses

O acúmulo de matéria-prima atinge níveis alarmantes nas usinas de beneficiamento situadas no noroeste paulista. O diretor da Braslátex, Adiel Carvalho, confirma que as usinas enfrentam estoque extremamente elevado de coágulo. “O avanço dos pneus importados está impactando toda a cadeia produtiva da borracha natural. Hoje, temos na usina aproximadamente o equivalente a seis meses de estoque”, detalha.

A situação é acompanhada pela Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor), com sede em São José do Rio Preto. Segundo o diretor executivo da entidade, Fábio Tonus, algumas usinas passaram a recusar novas coletas no final da safra. “Outro reflexo aparece nos prazos de pagamento. O pagamento aos sangradores continua sendo realizado com sete dias, mas, para os produtores rurais, os prazos já começaram a ser ampliados em razão desse cenário”, afirma.

A suspensão temporária da sangria durante a entressafra oferece um alívio pontual na oferta, mas a atenção do setor concentra-se no reinício das atividades, previsto para outubro. “Precisamos saber se, até lá, as usinas terão conseguido escoar seus estoques e voltar a receber normalmente a produção”, avalia Tonus. O executivo alerta que, caso o fluxo comercial não seja normalizado, os produtores iniciarão o novo ciclo sob forte restrição de caixa.

Importados dominam mercado de reposição

A crise estrutural reflete a mudança no perfil do mercado brasileiro de reposição de pneus, atualmente dominado por produtos asiáticos. Entidades setoriais apontam que as fábricas instaladas no país, que historicamente atendiam 70% do mercado de reposição, viram sua fatia encolher para 30%. Além disso, o aumento de tarifas sobre produtos brasileiros nos Estados Unidos prejudicou as exportações de pneus nacionais, contraindo ainda mais o consumo de borracha natural nacional.

Em resposta ao desequilíbrio, lideranças de sangradores, produtores rurais, usinas e da indústria pneumática vêm apresentando pleitos ao governo federal desde janeiro de 2025. “Temos defendido, entre outras ações, a revisão das tarifas de importação, medidas antidumping e o estabelecimento de cotas para a entrada de pneus importados”, pontua Tonus. As propostas buscam garantir igualdade de condições competitivas no mercado interno sem bloquear as importações.

A Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip) reforça que o avanço das importações afeta o setor fabril desde 2019, resultando em férias coletivas, paralisações e demissões. O presidente executivo da entidade, Rodrigo Navarro, ressaltou que o pneu importado entra no país pronto, sem demandar borracha, aço, químicos locais, serviços ou mão de obra. “Os produtos importados chegam com valores tão inferiores que, em alguns casos, tornam-se mais atrativos do que a própria reforma de um pneu de carga”, explica.

Setor pede equilíbrio nas tarifas

O setor industrial critica também a assimetria no tratamento tributário entre a matéria-prima e o produto acabado. A borracha natural importada teve elevação temporária da alíquota de importação para proteger a produção nacional, enquanto que pneus acabados não receberam o mesmo ajuste tarifário. “Não somos contrários à importação de pneus. O que defendemos é que todos no mercado, importadores ou fabricantes, joguem pelas mesmas regras”, afirma Navarro, ressaltando a necessidade de isonomia no cumprimento de normas ambientais e de logística reversa.

Durante a entressafra em agosto e setembro, o mercado acompanhará o ritmo de escoamento dos estoques represados nas usinas e a evolução das negociações de salvaguarda comercial com o governo federal. A eventual adoção de cotas ou taxas antidumping pode ser decisiva para determinar se o setor heveícola retomará o fluxo regular de comercialização em outubro ou se iniciará a nova safra em situação ainda mais grave.

 

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Rev. 27/08/2026 11:30

 
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